quinta-feira, 2 de julho de 2009

Novas tecnologias e velocidade questionam o poder das organizações

Na era da transparência, riscos, oportunidades e implicações estão a um clique, mostrando a força da tecnologia na agregação ou no distanciamento das pessoas. Mais que isto, uma mudança na centralidade do poder está em curso, retirando das corporações, dos governos e das instituições o papel preponderante de estabelecer parâmetros e prioridades. Estas foram algumas das constatações durante o seminário Unomarketing, realizado no auditório da Fecomércio em São Paulo/SP nos dias 2, 3 e 4 de junho de 2009.

Abel Reis, presidente da AgênciaClick, aponta que legados do século XIX marcam o que ainda será enfrentado no século XXI, como a idéia do progresso e do processo civilizatório em construção com o domínio da natureza; a realização de grandes feiras mundiais que discutiam as invenções do futuro; a noção do consumo como entretenimento a partir das galerias e da exposição cênica da mercadoria, gerando um distanciamento e uma impessoalização entre consumidores e comerciantes e dando início à idéia de marca, da complexidade das escolhas e da ritualização; a consciência de que o homem depende de si próprio na evolução da vida, para além das forças divinas. Isto tudo, segundo ele, fez uma base para hoje assentar uma transição de paradigmas da economia de massa para a “economia dos mercados de um”. Sai-se das grandes audiências de platéias, com consumidores pacientes legando sua atenção, para pequenas audiências de conversações, entre consumidores exigentes e prontos para participação. Reis então situa numa concepção mais ampla de software o grande avanço sócio-econômico, como uma metáfora dos dias atuais enquanto objeto cultural de tempo real, com uma gramática própria e sendo feito e manuseado por pessoas que podem cometer erros. “São novas formas de socialidade e novos recursos de cognição possibilitados pelo software. Nossa vida cada vez mais vai ser colonizada por objetos eletronicamente vivos”, diz.

Há quem visualize neste esquema uma visão negativa, um império da “dromocracia” (gestão pela velocidade) sobre a “democracia”, mas para ele a dinâmica é estabelecida pelo usuário e a agilidade de tempo real seria uma contribuição positiva, assim como a noção do erro e da instauração aceita do modo “beta perpétuo”, numa idéia de falha como possibilidade colaborativa de aprendizado. O executivo então traçou mais dois grandes significados humanos contemporâneos: o nomadismo e o tribalismo, do homem presente em diferentes espaços, com o celular funcionando como uma nova bússola e conectando pessoas, inclusive aquelas não fisicamente conhecidas e tocadas, por critérios de afinidade. E complementa: “a idéia positivista de progresso precisa ser descontruída com vários progressos em andamento, todos válidos; com diluição da fronteira hostil entre natureza e cultura e uma postura mais ética das marcas”.

Reis confia na possibilidade de “letramento” dos internautas através da disposição em colaborar nos canais online, mesmo que seja para dar-se conta da sua incapacidade de expressão, originada de más bases educativas formal e informal. O crescimento seria estimulado. Para ele, “as marcas têm o desafio de construir uma vida de significados e referências, biosferas onde há deveres éticos. Os relacionamentos são mais significativos que no passado e têm maior compromisso com valores”. No jogo das pressões sociais, a abundância da informação seria uma força positiva. Contudo, Felipe Soutello, presidente do Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal/CEPAM, condena esta agregação de pessoas via redes sociais baseadas na afinidade e portanto praticamente destituídas de contraposição e de uma visão mais holística da vida, não tão segmentada e pontual. “Sou pessimista quanto à capacidade efetiva destes meios participativos digitais de levar as pessoas à ação”, diz ele, “há, ao contrário, um desinteresse evidente por questões coletivas”. E questiona inclusive a eficácia da estrutura on-line da própria campanha do Obama, a despeito de ter obtido sua eleição, porque nos Estados Unidos o voto é opcional e portanto o enfoque não é de engajamento numa plataforma política e sim de convencimento a ir às urnas, o que prejudicaria um benchmarking para o cenário brasileiro. Agora, inclusive, a expectativa está em qual vai ser o comportamento vigilante e reivindicatório da população norte-americana diante da atuação dos eleitos, e se sua alta inclusão digital vai fazer alguma diferença nesta mobilização real.

Por Rodrigo Cogo / São Paulo

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